quarta-feira, 27 de maio de 2026

IA, Poder e Dignidade Humana: a Encíclica de Leão XIV

 

A Encíclica Magnifica Humanitas, lançada pelo Papa Leão XIV neste maio de 2026, apresenta uma profunda reflexão sobre os desafios éticos, sociais, tecnológicos e espirituais do mundo contemporâneo. Em continuidade com a tradição da Doutrina Social da Igreja, o documento procura responder às “coisas novas” do nosso tempo, especialmente diante da revolução digital, da inteligência artificial, das guerras, da crise ambiental e das desigualdades globais.

Mais do que um texto religioso, a Encíclica se apresenta como um forte chamado ético e humanitário diante do avanço acelerado das tecnologias digitais e da concentração de poder econômico, militar e tecnológico nas mãos de poucas corporações e potências globais.

A Doutrina Social da Igreja diante das “coisas novas”

Logo no início, o Papa recorda que a Doutrina Social da Igreja não é uma teoria abstrata ou desligada da realidade, mas uma sabedoria viva que dialoga com a história, as culturas, as ciências e os sofrimentos humanos. Assim como a Igreja respondeu aos desafios da Revolução Industrial no século XIX, hoje ela se vê chamada a refletir sobre as transformações produzidas pela inteligência artificial, pela digitalização da vida e pela automação da economia.

Leão XIV afirma que os princípios cristãos devem iluminar os desafios atuais, defendendo sempre a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a justiça social e a paz.

A dignidade humana acima da lógica da eficiência

Um dos eixos centrais da Encíclica é a defesa radical da dignidade humana diante do avanço do paradigma tecnocrático. O Papa reafirma que cada pessoa possui um valor infinito porque foi criada e amada por Deus. Esse valor não depende de produtividade, inteligência, desempenho econômico, riqueza ou utilidade social.

Nesse sentido, a Encíclica critica fortemente as ideologias contemporâneas que reduzem o ser humano à lógica da eficiência, da performance e da competição permanente. O documento alerta que existe hoje o risco de transformar as pessoas em simples dados, consumidores, perfis digitais ou recursos descartáveis dentro da economia tecnológica.

O Papa insiste que nenhum sistema econômico, político ou tecnológico pode estar acima da pessoa humana. A vida humana não pode ser medida apenas por produtividade, capacidade técnica ou desempenho algorítmico.

O verdadeiro problema não é tecnológico, mas humano

A Encíclica deixa claro que a Igreja não é contrária à ciência, ao progresso ou à inteligência artificial em si. O problema central não está simplesmente na tecnologia, mas na forma como ela é utilizada e colocada a serviço de estruturas de poder, lucro e dominação.

Leão XIV retoma a crítica ao chamado “paradigma tecnocrático”, já presente na Laudato Si’. Segundo o Papa, cresce a mentalidade que acredita que todos os problemas humanos podem ser resolvidos apenas por soluções técnicas, algoritmos, automação e controle digital.

No entanto, a Encíclica recorda que nenhuma máquina é capaz de substituir plenamente a consciência moral, o discernimento ético, a compaixão, o amor, o perdão ou a responsabilidade humana. Algoritmos podem processar informações, mas não conhecem a dor, a misericórdia, a solidariedade ou o sentido profundo das relações humanas.

Por isso, entregar decisões fundamentais da vida social a sistemas automatizados representa um grave risco de desumanização.

A crítica ao poder das grandes corporações tecnológicas

Um dos aspectos mais fortes do documento é a denúncia da concentração de poder nas mãos das grandes plataformas digitais. A Encíclica afirma que poucas corporações passaram a controlar fluxos globais de informação, comunicação, dados e comportamento social.

O Papa denuncia:

  • o controle da informação por grandes empresas digitais; 
  • a manipulação de consciências por meio de algoritmos; 
  • a criação de bolhas ideológicas e polarizações sociais; 
  • a transformação da intimidade humana em mercadoria; 
  • o uso econômico das emoções, preferências e fragilidades das pessoas. 

A Encíclica alerta que a aparente liberdade digital muitas vezes esconde novas formas de dependência, vigilância e controle social. O ser humano corre o risco de tornar-se objeto de monitoramento permanente e manipulação invisível.

A inteligência artificial e o risco da desumanização

Ao abordar diretamente a inteligência artificial, Magnifica Humanitas apresenta uma das críticas mais contundentes já feitas pela Doutrina Social da Igreja sobre o tema.

O Papa alerta que a IA pode aprofundar desigualdades sociais, discriminações e exclusões quando utilizada sem critérios éticos. Sistemas automatizados alimentados por dados preconceituosos podem negar acesso ao trabalho, à saúde, ao crédito e a direitos básicos.

Além disso, Leão XIV denuncia a tendência de substituir relações humanas por interações técnicas e automatizadas. O documento afirma que a sociedade digital corre o risco de enfraquecer vínculos comunitários, reduzir a empatia e transformar a convivência humana em relações mediadas exclusivamente por plataformas e algoritmos.

A Encíclica também critica a cultura do descarte digital, marcada pelo cancelamento, pela violência virtual, pela exposição pública e pela desumanização das pessoas nas redes sociais.

“Desarmar” a inteligência artificial

Uma das expressões mais fortes da Encíclica é o chamado para “desarmar” a inteligência artificial. O Papa estabelece um paralelo com o debate histórico sobre o desarmamento nuclear e afirma que a IA não pode ser colocada a serviço da guerra, da destruição e do controle absoluto da vida humana.

Leão XIV manifesta profunda preocupação com:

  • armas autônomas; 
  • drones militares inteligentes; 
  • sistemas de combate guiados por IA; 
  • vigilância digital em massa; 
  • uso militar de algoritmos; 
  • tecnologias de controle populacional. 

Segundo o Papa, permitir que máquinas decidam sobre a vida e a morte representa uma ameaça gravíssima à ética e à dignidade humana. Nenhuma tecnologia pode substituir a responsabilidade moral humana.

Por isso, a Encíclica pede regulamentações internacionais, tratados globais e limites éticos claros para impedir que a inteligência artificial seja transformada em instrumento de guerra, opressão ou dominação geopolítica.

Trabalho humano, automação e justiça social

O documento também dedica forte atenção aos impactos da automação sobre o trabalho humano. O Papa reconhece que a tecnologia pode aliviar tarefas pesadas e contribuir para o bem comum, mas critica duramente sua utilização apenas para aumentar lucros e reduzir custos.

A Encíclica reafirma que o trabalho humano possui dignidade própria e não pode ser tratado como elemento descartável da economia. A automação não pode servir para excluir trabalhadores, ampliar desigualdades ou concentrar ainda mais riqueza e poder.

Leão XIV insiste que os sistemas tecnológicos devem ser orientados para proteger a vida humana, fortalecer comunidades e promover justiça social.

Ecologia Integral e fraternidade universal

Em continuidade com o Papa Francisco, Magnifica Humanitas retoma temas centrais da Laudato Si’ e da Fratelli Tutti. O documento reafirma a proposta da Ecologia Integral, lembrando que “o grito da Terra e o grito dos pobres” permanecem inseparáveis.

A crise ecológica, tecnológica e social possui raízes comuns em um modelo baseado na concentração de riqueza, na cultura do descarte e na lógica da dominação.

Ao mesmo tempo, a Encíclica insiste na necessidade de fortalecer a fraternidade universal, a cultura do encontro e o compromisso com “terra, teto e trabalho para todos”. Em um mundo marcado por guerras, exclusões digitais e desigualdades, o Papa recorda que a humanidade precisa reconstruir vínculos de solidariedade e cooperação entre os povos.

Cinco princípios para a governança ética da tecnologia

A Encíclica propõe princípios fundamentais para orientar o desenvolvimento tecnológico e a inteligência artificial:

  1. Bem Comum – a inovação deve servir ao desenvolvimento integral de todos, e não apenas ao lucro de poucos grupos econômicos. 
  2. Destinação Universal dos Bens – os avanços tecnológicos devem beneficiar toda a humanidade e não aprofundar exclusões digitais. 
  3. Subsidiariedade – as tecnologias devem fortalecer comunidades locais e não concentrar ainda mais poder global. 
  4. Solidariedade – a IA deve proteger os vulneráveis, combater desigualdades e fortalecer relações humanas. 
  5. Justiça Social – os sistemas digitais precisam de transparência, responsabilidade ética e controle democrático. 

Entre Babel e a fraternidade

A Encíclica conclui afirmando que a grande escolha do nosso tempo não é simplesmente aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas decidir qual projeto de humanidade queremos construir.

Leão XIV alerta para o risco de uma nova “Torre de Babel” digital, marcada pela soberba tecnológica, pela concentração de poder, pela vigilância permanente e pela desumanização. Em contrapartida, propõe uma civilização fundada no cuidado, na justiça, na fraternidade, na paz e na centralidade da pessoa humana.

Mais do que um documento sobre tecnologia, Magnifica Humanitas é um forte chamado espiritual, ético e político para recolocar a vida humana acima dos interesses econômicos, militares e tecnológicos. Em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, a Encíclica recorda que nenhum algoritmo possui mais valor do que a dignidade humana e que o verdadeiro progresso só existe quando está a serviço da vida, da paz e do bem comum.

Frei Rodrigo Péret, ofm


quarta-feira, 8 de abril de 2026

Igreja lança campanha global de desinvestimento na mineração

 

Sala de Imprensa da Santa Sé em Roma, 20 de março de 2026. Fotos: Jaime C. Patias

No dia 20 de março, na Sala de Imprensa da Santa Sé, no Vaticano, foram lançada oficialmente a Plataforma para o Desinvestimento na Indústria da Mineração, com a campanha “Desinvestimento na indústria mineira. Coerência ética para o cuidado da Casa Comum”, uma iniciativa liderada pela Rede Igrejas e Mineração com o apoio de mais de 40 instituições ao redor do mundo.

O evento reuniu importantes lideranças eclesiais, representantes de comunidades afetadas pela mineração e especialistas em ecologia integral, marcando um passo significativo no compromisso da Igreja com a justiça socioambiental. bem como com a transformação dos modelos econômicos que impactam a vida e os territórios.

Um lançamento com forte significado político e espiritual

Entre os participantes estiveram o Cardeal Fabio Baggio, do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral; o Cardeal Álvaro Ramazzini, reconhecido por sua defesa dos povos indígenas; Dom Vicente Ferreira, bispo brasileiro e assessor da Rede Igrejas e Mineração; além de lideranças como Yolanda Flores, do povo Aymara no Peru, e o padre Dario Bossi, coordenador da rede.

O lançamento no Vaticano não é apenas simbólico: ele expressa o reconhecimento institucional, no coração da Igreja Católica, da urgência de enfrentar os impactos da mineração e de repensar o papel das finanças globais nesse modelo.

Como destacou o Cardeal Baggio, a iniciativa nasce de uma convicção moral profunda diante de uma pergunta central do nosso tempo: que mundo queremos deixar para as próximas gerações? Essa questão se concretiza nas realidades vividas por comunidades afetadas pela mineração — territórios feridos, águas contaminadas e povos deslocados.

O que é a Plataforma de Desinvestimento?

A Plataforma de Desinvestimento na Indústria Minerária propõe uma ação prática: retirar recursos aplicados em empresas mineradoras envolvidas em impactos socioambientais e canalizá-los para alternativas que promovam sustentabilidade, justiça e cuidado com a vida.

Mais do que uma escolha técnica, trata-se de uma decisão ética e espiritual, em sintonia com a Doutrina Social da Igreja e inspirada pela encíclica Laudato Si'. A proposta convida dioceses, congregações, instituições de fé e organizações sociais a reavaliar o destino de seus recursos e a assumir práticas coerentes com a defesa da vida.

A iniciativa também se conecta a processos recentes da Igreja, como o Sínodo para a Amazônia e o documento Mensuram Bonam, que orienta investimentos éticos e responsáveis.

Por que desinvestir da mineração?

A mineração ocupa hoje uma posição estratégica na economia global, especialmente no contexto da chamada “transição energética”. No entanto, como foi destacado no evento, esse setor está frequentemente associado a violações de direitos humanos, degradação ambiental e conflis nos territórios.

O Cardeal Ramazzini trouxe um testemunho contundente da experiência na Guatemala, onde a exploração de ouro por empresas transnacionais deixou comunidades empobrecidas, apesar das promessas de desenvolvimento. Seu relato evidencia uma contradição central: o que é legal nem sempre é justo.

Já Dom Vicente Ferreira alertou para os riscos das falsas soluções do chamado “capitalismo verde”, que, sob o discurso da sustentabilidade, aprofundam práticas extrativistas e reforçam dinâmicas neocoloniais, especialmente nos territórios do Sul Global ricos em minerais estratégicos.

Nesse contexto, a mineração aparece não apenas como uma atividade econômica, e sim  como um dos pilares de um sistema que prioriza o lucro acima da vida.

O papel das finanças e a urgência da coerência ética

Um dos pontos centrais do lançamento foi a relação da mineração com o sistema financeiro. Grandes empresas mineradoras são sustentadas por bancos, fundos de investimento e mercados globais, o que torna difícil transformar o modelo apenas por meio de regulação.

Por isso, a desinversão surge como uma estratégia concreta e já utilizada em outras lutas históricas, como contra o apartheid, os combustíveis fósseis e a indústria armamentista.

A irmã Maamalifar Poreku destacou que as decisões financeiras não são neutras: uma vez que investir se trata de uma escolha moral. Quando instituições de fé financiam setores que destroem a vida, há uma contradição entre os valores e práticas. 

A plataforma, portanto, busca promover essa coerência, articulando fé, ética e economia.

Uma iniciativa global, enraizada nos territórios

A Rede Igrejas e Mineração, que lidera a iniciativa, atua em 12 países da América Latina, acompanhando comunidades impactadas e fortalecendo suas lutas. Desde sua criação, em 2013, a rede tem denunciado a violência associada ao extrativismo e construído alternativas baseadas na justiça, na solidariedade e na ecologia integral.

A nova plataforma amplia esse trabalho ao conectar territórios afetados no Sul Global com instituições e atores no Norte Global, criando uma rede internacional de responsabilidade e ação.

Um chamado à ação

O lançamento da Plataforma de Desinvestimento na Mineração representa um marco importante na construção de uma economia mais justa e sustentável. Ele afirma que enfrentar a crise ecológica não é apenas uma questão técnica, mas uma decisão ética, política e espiritual.

Diante da gravidade da crise climática e socioambiental, a iniciativa propõe um caminho claro, pois não basta denunciar os impactos, é preciso transformar as estruturas que os sustentam.

Ao convidar instituições a retirarem seus investimentos da mineração, a campanha aponta para uma mudança de paradigma: colocar o dinheiro a serviço da vida, dos povos e da Casa Comum.

Mais do que uma proposta financeira, trata-se de um chamado à conversão  pessoal, institucional e global.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Para além de toda conversa fiada e diálogos


O Alternative Mining Indaba 2026 está acontecendo na Cidade do Cabo, África do Sul, e é um encontro comunitário de três dias que busca romper com as narrativas dominantes sobre a mineração e colocar no centro as vozes e as experiências das comunidades atingidas em toda a África.

 

Frei Rodrigo Péret foi painelista no debate “Para além de toda conversa fiada e diálogos”, um espaço de denúncia, reflexão crítica e afirmação de alternativas frente ao extrativismo e às falsas soluções promovidas pelo setor mineral.

 

A seguir, a fala de Frei Rodrigo.

 

“Para além de toda conversa fiada e diálogos”


A partir da experiência da Rede Igrejas e Mineração, ficou claro que as estratégias mais eficazes para responsabilizar mineradoras e governos partem da perspectiva das comunidades atingidas. O primeiro passo é compreender qual é, hoje, o papel do setor minerário e como ele opera. Outro passo fundamental é reconhecer os processos que nascem nas próprias comunidades para transformar essa realidade.


Precisamos repensar o chamado “futuro verde” promovido por governos e corporações. Por trás da linguagem da transição existem profundas desigualdades e formas renovadas de exploração. Muitas soluções da transição verde são falsas porque não mudam o sistema que causou a crise climática. Por isso, é necessário falar de uma transformação sistêmica pós-extrativista.


A transição verde é apresentada como resposta às mudanças climáticas, mas esconde uma corrida global por minerais críticos. A mineração é tratada como inevitável, impulsionando a extração massiva de minérios críticos e terras raras. Essa corrida intensifica a destruição ambiental, a militarização e novas formas de colonialismo, especialmente no Sul Global, onde territórios indígenas e ecossistemas tornam-se zonas de sacrifício para sustentar o consumo no Norte Global.


O que muitas vezes se oculta é que a transição energética é inseparável das transições digital e militar. As três dependem da expansão da mineração. Esses “minerais críticos” não são apenas minerais da energia que querem chamar de limpa; são também minerais da guerra, essenciais para drones, mísseis, satélites, sistemas de vigilância, inteligência artificial e infraestrutura militar. Sob a linguagem da sustentabilidade e da segurança, avança uma nova fase do capitalismo extrativista, que atualiza lógicas coloniais e militarizadas, em vez de superá-las.


A expansão dos orçamentos militares nos Estados Unidos, na União Europeia, na China e na Rússia para garantir minerais estratégicos revela que essa transição também é uma agenda geopolítica e de guerra. A chamada “mineração sustentável” não resolve os danos socioambientais; apenas repagina o extrativismo. O capitalismo verde promete soluções tecnológicas em um planeta finito, governado por uma lógica econômica de crescimento infinito.

Juntas, as transições energética, digital e militar estão consolidando um novo complexo industrial–militar–mineral. A mineração torna-se a espinha dorsal dos sistemas energéticos, das economias digitais e da guerra. A tecnologia não reduz a extração, ela a acelera. Quando a transição é guiada pelo mercado, o poder corporativo é preservado, as leis ambientais são enfraquecidas e novas fronteiras de exploração se abrem, deslocando comunidades. Isso é colonialismo energético. Precisamos perguntar: transição para quem e a que custo?


O problema central é o modelo extrativista, que trata a natureza como um recurso infinito e produz desigualdade, caos climático e violência. Não haverá solução real sem desmontar esse modelo. O que precisamos é de uma transformação civilizatória que confronte o poder corporativo e o neocolonialismo, garanta o direito dos povos indígenas, dos trabalhadores e das comunidades de dizer não, por meio do consentimento livre, prévio e informado, e avance na justiça ecológica.


Aqui, o multilateralismo de base popular torna-se essencial. Enquanto o multilateralismo oficial é cada vez mais capturado por interesses corporativos e geopolíticos, comunidades constroem um multilateralismo de baixo para cima, enraizado nos territórios, nos movimentos sociais e nos povos atingidos, e não nos Estados ou corporações. Nas lutas por Territórios Livres de Mineração, comunidades da América Latina e de outras regiões articulam solidariedade internacional, compartilham estratégias e afirmam modos alternativos de vida, desenvolvimento e relação com a natureza.


Esses processos de base mostram que os territórios não são apenas espaços de conflito, mas também de resistência, criatividade, espiritualidade e imaginação política. Alternativas pós-extrativistas já existem e precisam ser fortalecidas: economias da suficiência, e não do excesso; desenvolvimento centrado nas comunidades; agroecologia e soberania alimentar; moradia cooperativa, trabalho digno e acesso universal à saúde e à educação; modos de produção circulares e sustentadores da vida. Central nessa visão é o reconhecimento dos Direitos da Natureza como fundamento de uma vida democrática e sustentável.


Em todo o Sul Global, movimentos por Territórios Livres de Mineração afirmam princípios-chave: justiça ambiental, defesa da biodiversidade, autonomia e participação, transformações reais com reparação e responsabilização, e o direito de dizer não a projetos que ameaçam a vida. Somente uma transformação pós-extrativista pode impedir que a transição atual continue sendo um projeto de morte. Um futuro justo exige ir além das falsas soluções e construir uma transformação social, ecológica e humana.


Para os atores e grupos de fé, este momento exige clareza profética e coragem moral. Os bens da Terra são bens comuns, não mercadorias. Reconhecer a natureza como sujeito de direitos fundamenta uma ética do cuidado, da reciprocidade e da regeneração, e desafia o mito de que o bem-estar pode ser construído sobre crescimento infinito, sofrimento ou destruição. As Igrejas são chamadas não à neutralidade, mas a caminhar ao lado das comunidades atingidas amplificando suas vozes e tecendo redes de solidariedade internacional e de base popular que desafiem a falência moral das “soluções” militarizadas e extrativistas.


Obrigado.

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Nota de Pesar do SINFRAJUPE, homenagem a Frei Sérgio

 

                                                            BrF| Crédito: Corbari

O Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE divulgou, nesta terça-feira (3), uma Nota de Pesar pelo falecimento de Frei Sérgio Antônio Görgen (OFM), frade franciscano, um de seus fundadores e referência profética na Igreja comprometida com os pobres e o cuidado com a criação.

A nota destaca Frei Sérgio como profeta da Justiça, da Paz e do Cuidado com a Criação, cuja vida foi marcada pela fidelidade ao Evangelho, pela espiritualidade franciscana e pelo compromisso com os sem-terra, os pequenos agricultores e as lutas do povo.

Leia abaixo a  íntegra da Nota 

Nota de Pesar do SINFRAJUPE – Frei Sérgio Antônio Görgen, OFM

Com profundo pesar, mas sustentados pela fé no Deus da Vida, o Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia – SINFRAJUPE despede-se de Frei Sérgio Antônio Görgen, OFM, um de seus fundadores, irmão menor e profeta do nosso tempo. Sua vida foi testemunho coerente de uma espiritualidade franciscana viva, encarnada nas lutas do povo, especialmente dos sem terra, dos pequenos agricultores e das comunidades camponesas, às quais dedicou sua existência com coragem, ternura e radicalidade evangélica.

Frei Sérgio soube unir mística e ação, contemplação e compromisso político, inspirando-se nos passos de São Francisco e Santa Clara. Sua profecia se expressou na defesa intransigente da justiça social, da Reforma Agrária, da soberania alimentar e do cuidado com a Casa Comum, assumindo sempre o lado dos pobres e excluídos. Foi um homem do Evangelho vivido “com os pés no chão”, que fez da própria vida uma oferenda a serviço do Reino.

Agradecemos a Deus pelo dom da vida de Frei Sérgio, por sua palavra firme, seu gesto fraterno e sua fidelidade até o fim. Sua memória permanece viva nas sementes lançadas na terra, nas organizações populares que ajudou a construir e na esperança que segue animando as lutas do povo. Que a Irmã Morte o conduza ao abraço misericordioso do Criador, e que seu exemplo continue a nos inspirar na caminhada por Justiça, Paz e Ecologia.

Frei Sérgio Antônio Geörgen, OFM: presente na luta, presente na esperança, presente na vida que resiste.

Uberlândia, 3 de fevereiro de 2026.

Equipe Executiva do SINFRAJUPE

Frei José Francisco de Cássia dos Santos, OFM

Frei Rodrigo de Castro Amédée Péret, OFM

Moema Miranda, OFS

Maria Zélia Castilho Rogedo, OFS

Lucas Lins, JUFRA



terça-feira, 19 de agosto de 2025

Quando a mineração decide o destino de uma cidade: o caso de Kiruna, Suécia

 

Foto: AFP

Na imagem acima, da AP, pessoas acompanham nesta terça-feira, 19 de novembro, o início da remoção de dois dias da igreja de madeira em Kiruna, na Suécia, motivada pela expansão da mineração.


Em pleno século XXI, no norte da Suécia, a cidade de Kiruna está sendo obrigada a se mudar por causa da expansão da maior mina subterrânea de ferro do mundo. Até a histórica igreja luterana, de Kiruna, construída em madeira, em 1912 e considerada uma das mais belas do país, está sendo transportada inteira para outro local. Esta remoção irá durar dois dias, 19 e 20 de agosto.


O “espetáculo” da mudança esconde uma dura realidade: milhares de moradores estão sendo deslocados e o povo Sami, indígena da região, vê sua vida ameaçada. Suas rotas de criação de renas estão sendo destruídas, colocando em risco uma cultura ancestral.


Enquanto isso, a mineradora estatal LKAB e o governo apresentam o projeto como parte da “transição verde” da Europa. Mas que transição é essa que sacrifica comunidades e povos inteiros?


O caso de Kiruna mostra como as mineradoras ainda decidem o destino dos territórios, colocando lucro acima da vida e da cultura.

Para compreender melhor essa remoção, traduzimos um artigo de Nishtha Badgmia, publicado pelo WION (World is One News) em fevereiro de 2023, que explica por que uma cidade está sendo deslocada na Suécia.

Explicado: Por que esta cidade na Suécia está sendo movida prédio por prédio

No norte da Suécia, a cerca de 200 km acima do Círculo Polar Ártico, uma cidade chamada Kiruna está testemunhando subsidência devido à maior mina de ferro do mundo. Entre vários edifícios, a cidade de 18.000 pessoas também abriga uma igreja de madeira de 600 toneladas, de cor terracota aconchegante e culturalmente significativa, projetada para se assemelhar a uma cabana do povo indígena Sami. O destino dessas estruturas e casas está entrelaçado com a empresa estatal LKAB, que é a maior mina de ferro do mundo e produz 80% do suprimento da União Europeia, segundo um relatório do Guardian.

O que acontecerá com a cidade?

Nos próximos anos, Kiruna está prestes a testemunhar um dos projetos de realocação mais radicais do mundo, já que a mina de ferro local ameaça engolir a cidade, de acordo com o Guardian, depois que rachaduras surgiram em hospitais e prédios escolares. Pelo menos 6.000 pessoas deverão se mudar da cidade que afunda e também enfrentarão um aumento gradual em seus aluguéis, ao longo de oito anos, até um teto de 25% a mais do que o valor antigo.

Igreja de Kiruna

Em 1912, a cidade recebeu o edifício de madeira de 600 toneladas sem símbolo religioso, descrito uma vez pela pastora Lena Tjärnberg como “a sala de estar da comunidade”. Nos próximos três anos, depois de mais de um século, o edifício mais bonito da Suécia será transferido. Segundo o relatório, a igreja de cor terracota, projetada para se assemelhar a uma cabana do povo indígena Sami, será realocada cerca de três quilômetros a leste da cidade antiga, próxima ao cemitério local.

Fundada em 1900, a mina em questão é administrada pela empresa estatal sueca LKAB, que também é a maior mina de ferro do mundo. No entanto, daqui para frente, a empresa espera estar na vanguarda da revolução industrial verde da Europa e impulsionar a autonomia em recursos naturais, segundo o Guardian. Em 2021, a empresa também começou a produzir ferro-esponja livre de combustíveis fósseis, substituindo o carvão por hidrogênio produzido a partir de eletricidade verde.

No mês passado, a empresa também anunciou que estava assentada sobre o maior depósito conhecido de elementos de terras raras na Europa, alguns dos quais são importantes para a produção de baterias de carros elétricos e turbinas eólicas. Subsequentemente, a vice-primeira-ministra da Suécia, também responsável pelo clima e pelos negócios, Ebba Busch, disse: “A Suécia é literalmente uma mina de ouro... A Europa precisa aprender a lição de não ser tão dependente de um único país para o gás, como fomos da Rússia.”

Falando a jornalistas de dentro da mina, Busch, na época, disse que essa descoberta de metais raros também dá à Europa a chance de ser menos dependente da China, que é a fonte de 86% do suprimento global, informou o Guardian.

Como isso afetará a comunidade local?

O tipo de transformação que Kiruna está passando levantou alarmes entre muitos, já que toda a cidade será realocada devido à atividade mineradora na região e ao risco que ela representa para os moradores, incluindo o povo Sami. Séculos antes de a LKAB iniciar suas operações na região, os Sami criavam renas por toda a terra ártica; no entanto, relatórios sugerem que seu modo de vida está sob ameaça.

Além disso, a mineração e as atividades humanas, que levaram consequentemente à fragmentação da terra, tornam a criação de renas cada vez mais difícil, enquanto a crise climática já ameaçava a principal fonte de alimento de inverno das renas, o líquen. O povo Sami também teme que qualquer interrupção dessa “atividade ancestral” comprometa seus direitos à terra, informou o Guardian.

Um porta-voz da LKAB, Anders Lindberg, disse que duas aldeias Sami já mudaram suas rotas de pastoreio desde que a mina foi aberta, enquanto a empresa se tornou melhor em ouvir as questões dos criadores de renas e está trabalhando para minimizar o impacto de seu trabalho. No entanto, segundo o relatório, outra aldeia Sami chamada Gabna pode ter que mudar suas rotas de pastoreio devido à descoberta dos novos elementos de terras raras.

Fonte: WION (World is One News)